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KRISHNAMURTI: lugar na sociedade

Pergunta: Proporcionei ao meu filho a mais esmerada educação; no entanto, ele não parece ser feliz e capaz de encontrar o seu lugar na sociedade. Qual é a causa do seu insucesso?

KRISHNAMURTI: Por que precisamos ajustar-nos à sociedade? (risos) Não é caso para rir. Tal é o desejo de todo pai: que o filho ou a filha se ajuste à sociedade. Por que? Por que o filho deve ajustar-se à sociedade? Que sociedade maravilhosa é esta que temos? Vede por favor que não estou dizendo uma coisa superficial, que se possa varrer com uma risada. Na Índia, os pais querem que os filhos se ajustem `a sociedade; aqui é a mesma coisa; na Rússia idem. Em toda a parte queremos que seja mantido o atual estado das coisas e que os nossos filhos a ele se ajustem.
Que é essa coisa chamada sociedade? Pensemos a respeito dela de maneira simples, não no majestoso sentido econômico ou filosófico. Que é essa sociedade? Esta sociedade é produto da ânsia de aquisição, da ambição, da avidez, da inveja, da busca do preenchimento individual, da busca incessante de alguma espécie de permanência neste mundo impermanente. Naturalmente, nesta sociedade há também alegrias passageiras, divertimentos variados, etc. Isto, dito cruelmente, em poucas palavras, é o que constitui a nossa sociedade, e a ela queremos que os nossos filhos se ajustem e nela sejam bem sucedidos. Adoramos os grandes êxitos. Nossa educação é um processo de ensinar os nossos filhos a se ajustarem, não é verdade? Ela condiciona, para se adaptarem a um determinado padrão, ensina-lhes certas técnicas para que obtenham bons empregos. E no meio de tudo isso há a constante ameaça de guerra.
Eis o que é a nossa sociedade. Mas, por que educamos os nossos filhos? Para que isso? Nunca investigamos. Qual a finalidade da educação, se nossos filhos estão sendo destinados a matar ou a ser mortos na guerra?
Sem dúvida, é muito importante que pensemos em tudo isso de maneira totalmente nova, em vez de ficarmos a fazer reformas, isto é, remendar aqui e ali. Não deveríamos cuidar de resolver nossos problemas, não considerados em termos de América, Rússia, ou qualquer nação, mas como um todo? Não deveríamos abeira-nos do problema da existência do homem, não como americanos ou ingleses, mas do ponto de vista das relações humanas? Enquanto assim não procedermos continuaremos a Ter guerras constantes e continuará a haver miséria no mundo. Há miséria, talvez não na América, mas há na Ásia, e enquanto este problema não for resolvido, não teremos paz aqui.
Por favor, não desprezeis isso, como se fosse uma coisa já ouvida milhares de vezes. Se realmente o compreendestes, como um indivíduo simples, estareis, então, no caminho da solução do problema. Mas se só vos se preocupa ajudar o vosso filho e ser bem sucedido numa determinada sociedade, se só vos interessa um determinado problema – o qual naturalmente terá de ser resolvido mas não poderá ser resolvido sem se dar atenção ao todo – nesse caso não achareis solução alguma, e por conseguinte, tereis mais complicações e mais misérias.
Temos, pois, fundamentalmente, realmente, de dar atenção ao problema da educação. Consiste ela apenas em ensinar ao jovem uma técnica, para que tenha emprego? Ou se destina criar uma atmosfera de verdadeira liberdade, não liberdade para fazermos o que entendermos, mas liberdade para cultivarmos aquela inteligência que sabe enfrentar cada experiência e cada influência condicionadora – enfrentá-la, compreendê-la e ultrapassá-la?
Esse problema requer muita percepção, muito discernimento e inteligência, por parte de cada um de nós. Como deveis saber, porém, temos tanto medo porque queremos estar em segurança. No momento em que buscamos a segurança, projeta-se sobre nós a sombra do temor, e na luta para vencermos o temor, condicionamo-nos mais ainda, condicionamos a nossa mente e criamos uma sociedade que fatalmente há de limitar o nosso pensar. E quanto mais eficiente se torna uma sociedade, tanto mais ela é condicionada.
Dar real atenção ao problema da verdadeira educação, compreender integralmente o significado da educação, porque somos educados a para que isso serve, é uma uma empresa imensa, que não pode ser exposta em alguns minutos. Podeis Ter lido ou ser capaz de ler muitos livros, podeis Ter muita erudição e uma infinita variedade de explicações ; mas isso, por certo, não é liberdade. Vem a liberdade com a compreensão de nós mesmos, e só a liberdade nos habilita a enfrentar sem temos todas as crises e todas as influências que condicionam; mas é necessária muita penetração e meditação.

24 de maio de 1954.

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