Meu encontro com a mímica
Meu encontro com a mímica (parte 1)
Por Victor Paulo de Seixas
Conheci a pantomima em meados de 1992, nesta época tinha começado a me enveredar para o teatro e já buscava uma linha mais física, circulava por Grotowski, Barba e tentava entender Meyerhold, quando caí no circo e, lá embaixo da lona do falecido circo voador, encontrei o mímico Jiddu Saldanha, que me apresentou a arte da pantomima. Foi amor à primeira vista! A técnica se encaixava no meu corpo e me dava algo que buscava há muito tempo: autonomia. Não precisava de mais nada, apenas com meus gestos poderia criar universos, contar estórias, fazer rir e chorar, tinha encontrado algo que eu queria me aprofundar.
Nesta época também tinha começado a trabalhar com o meu palhaço. Como quase todos no circo, iniciei somente para ganhar dinheiro em festinhas e fui me envolvendo até ser completamente tomado…
Panomima e Palhaço, os dois seguiram juntos por muito tempo, se confundindo e se completando.
Continuei minha busca dentro da mímica, passando por outros profissionais que me ajudaram a aprimorar minha técnica cada vez mais e um dia não escrevia mais ator em meus cartões, mas sim mímico.
E me sentia como mímico.
Porém ainda eram confusas minhas idéias sobre palhaço, personagem pantomímico e a pantomima sem maquiagem…
Até que, em 1997, Angela de Castro, que reencontrei em Londres anos depois, me ajudou a separar tudo:
O palhaço, o pierrô-pantomímico e o ator-mímico.
Precisava contar sobre as novas coisas que tinha aprendido.
Sentia necessidade de passar adiante o que tinha descoberto.
Tentei umas parcerias sem sucesso, pois era algo muito pessoal.
Nasceu meu primeiro solo:
One Clown Show!
Conduzido pelo palhaço Tozinho apresentava várias cenas:
Pantomima de estilo e contemporâneas, palhaço tradicional e moderno, magia, esquetes musicais, manipulação de bonecos, uma hora para rir e se emocionar.
Descobri a magia da pantomima.
Descobri o valor do palhaço
Apresentei para as mais diversas platéias das mais diversas idades em várias capitais e pequenas cidades do Brasil.
Sempre com uma ótima resposta do público, adultos, crianças, idosos, todos se divertiam e todos sempre se emocionavam, principalmente em um esquete chamado: Assim a vida é, uma versão que fiz do maravilhoso esquete de Marcel Marceau.
Mas nas primeiras apresentações do One Clown Show!, não coloquei este esquete porque tinha medo que as crianças se chateassem. Era muito codificado.
O espetáculo sempre terminava com bis e às vezes o público pedia mais de um.
Teve uma vez que depois do terceiro bis, o público queria novamente mais um. Sem saber o que fazer, entrei novamente em cena e apresentei Assim a Vida é.
As crianças ficaram em silêncio durante os 15 minutos da cena.
Entendendo ou não, todos se emocionaram.
A partir daí esta cena começou a fazer parte do espetáculo.
A poesia em movimentos, sendo ou não compreendida, não deixa de ser poesia.
Obrigado Marcel Marceau.
Obrigado Etienne Decroux por ter dedicado sua vida para codificar a arte da mímica.
Meu encontro com a mímica (parte 2)
Por Victor Paulo de Seixas
O espetáculo One Clown Show!, foi provavelmente o mais importante da minha carreira. Através dele abri muitas portas e, principalmente, descobri que era capaz de caminhar sozinho. O aluno tinha se transformado em professor. Depois dele surgiram outros espetáculos, solos e parcerias, Palhaço e Pantomima.
Mas algo aconteceu.
Conhecia na teoria o trabalho de Etienne Decroux e queria conhecer mais, de preferência na prática.
Em 2000, no ECUN em Belo Horizonte:
workshop de Mímica Corporal Dramática, Técnica Etienne Decroux.
Fiz minhas malas e fui, uma curta viagem que iria me inspirar mais tarde a uma viagem maior.
Começava a primeira aula depois do aquecimento, um exercício utilizando uma corda, partindo de uma posição relaxada para uma outra alongada, exercício chamado Lapin (lebre em francês).
Algo acendeu dentro de mim
Finalmente tinha encontrado o que vinha buscando.
Estava sonhando? Tudo que sempre imaginei para teatro estava ali: a abstração, a beleza, a emoção, movimentos fortes e precisos.
A semana acabou mais continuei a treinar o que tinha aprendido.
Continuei a sonhar sobre o que queria conhecer mais.
Inspirado no que aprendi comecei a montar um novo projeto:
M.C.C.R.E. ²
Movimentos comuns e cotidianos repetidos ao extremo e ao quadrado.
Em 2000 estreei no Centro Cultural São Paulo com mais um solo de minha autoria.
Utilizei tudo o que conhecia e tudo o que achava que conhecia, foi um desafio.
Mas não estava satisfeito. Ainda precisava treinar mais, aprender mais.
Considero-me uma pessoa disciplinada, mas mesmo com todo o esforço que fazia, ainda não era o suficiente.
Então em 2001 fiz minhas malas e peguei o avião para Londres.
Acabou a temporada dos antigos espetáculos.
Adeus às minhas velhas idéias.
Ecole de Mime Corporel Dramatique de L’ange Fou.
O professor voltava a ser aluno.
Uma breve pausa
Um longo passo
Mímica Corporal Dramatica
Agora me embriago de sua complexidade e beleza.
Encontro Etienne Decroux atravez de meus mestres:
Corrine e Steve.
…
Londres, Outubro 2003