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Informações sobre a arte da mímica

Entrevista com Jiddu

AGORA AS PERGUNTAS:

1 - As notícias que tive do seu trabalho é de que vc. havia criado um personagem que se apresentava com um sax, depois, li um belíssimo depoimento teu no site do Cleber França que me direcionou para o teu site, repleto de surpresas estéticas, fale um pouco desta tua relação com a mímica?

Essa “personagem” que você viu com o sax é o meu palhaço, na verdade, meu encontro com a mímica foi através do palhaço, foi treinando circo no circo voador no rio de janeiro que te conheci e me impressionei com a possibilidade expressiva da pantomima, nunca tinha visto um mímico antes apenas fotos, me apaixonei pela idéia de conduzir a platéia apenas utilizando minhas mãos, sem a necessidade de mais nenhum elemento estético, me atraia a idéia de ter “alguma coisa” como na música quando se tem o seu instrumento e junto dele este “algo a mais”, iniciei na pantomima para “acrescentar” algo ao meu palhaço e pouco a pouco a mímica foi tomando espaço em meu trabalho até se tornar minha pequena obsessão.

2 - Você está estudando na Inglaterra, numa escola que traz, genuínamete a técnica de Decroux, a mesma escola de Ana Teixeira, por exemplo. Como é, pra vc., conviver com esta experiência?

Eu não acredito que ainda exista a técnica “genuína” de Decroux, pois ele morreu deixando escrito muito pouca coisa de cunho técnico, basicamente as suas impressões sobre a arte da mímica, meus professores estudaram, e conviveram com Decroux durante aproximadamente 6 anos e Decroux demorou toda sua vida para codificar sua técnica, o que eles aprenderam neste meio tempo é o que eles ensinam hoje, e também acredito que depois de anos ensinando provavelmente adaptaram com suas experiências pessoais.

Até onde sei existem 3 pessoas no mundo que tiveram contato mais largo com Decroux e até hoje procuram manter a técnica como aprenderam: Thomas Leabhart, que dá oficinas regulares entre Paris e na Califórnia, Corrine e Steve na escola que eu me encontro hoje, Corrine e Steve foram os últimos assistentes de Etienne Decroux antes de por estar muito velho e decidir fechar sua escola e após sua morte “assumiram” a mímica Corporal de Decroux.

Conheci a técnica através de Ana Teixeira que estudou nesta escola também, mas queria “chegar mais perto” quando decidi ir até Corrine e Steve, e para mim e uma experiência única experimentar o legado de Decroux, a escola como todas as escolas tem seus defeitos e qualidades, mas acredito que os professores tem um extremo carinho com a técnica deixada a eles por Decroux e com o mesmo cuidado pretendo levá-la comigo de volta ao Brasil.

3 - É evidente que a paixão pela mímica te levou a ser mais rigoroso consigo mesmo e com a linguagem do gesto, quais as perspectivas que se delineiam no horizonte de Victor de Seixas?

Costumo fazer uma comparação do ator com o musico neste ponto, se você pretende tocar qualquer instrumento necessita treino, quanto mais treina e estuda e se dedica, melhor você vai ficar, carisma e outra coisa, você pode tocar apenas uma melodia com muito carisma e ser um músico medíocre, agora se coloca junto técnica proveniente de um treino rigoroso e o carisma você atinge o ponto, o ator gestual é a mesma coisa, o corpo expressivo é o instrumento, por isso tem que desenvolver e treinar duro, só o carisma não basta, vai ser ator tradicional.

No momento estou com minha cabeça na escola, em me aprofundar e me embriagar de mímica corporal, andei ensaiando algumas coisas misturando máscaras, bonecos com movimentos, mas nada concreto, só começo a me permitir planejar algo quando terminar o terceiro ano da escola que vai ser no próximo ano, por enquanto estou namorando a Mímica Corporal.

4 - Quais são os mímicos que vc. teve a oportunidade de assistir até aqui?

Bem no Brasil acho que vi quase todo mundo da minha geração, ou pelo menos os conheci, da geração anterior conheci quase todos mas não tive a oportunidade de vê-los atuando, apenas você, Cleber França, Fernando Vieira e Eduardo Coutinho até onde eu me lembro, dos estrangeiros, tive a oportunidade de ver uma das ultimas(ou foi a ultima?) apresentação do Marcel Marceau e diversos mímicos e companhias que utilizam mímica em seu trabalho, Em Londres tem um festival de mímica e teatro físico no inicio do ano e no sul da França em agosto, bem interessante assistir companhias de toda parte da Europa e Ásia, e estou sempre que posso “trocando figurinhas” com artistas gestuais por aqui quando eles são receptivos a isso.

5 - Fale um pouco da tua Companhia.

Minha companhia em São Paulo e a Circo Navegador (www.circonavegador.com.br), com mais dois amigos, que inclusive estão a todo vapor. Criei o núcleo Aangatu (que significa bons tempos virão em Tupi), para assinar meus solos e trabalhos experimentais, pois não é uma companhia fixa, convido as pessoas para trabalhos específicos. Aqui agora estou um pouco envolvido com uma companhia local chamada 4aRmPeOpLe (gente de 4 braços), que trabalha com bonecos, mímica e palhaço, ando meio ocupado com a escola agora, mas no próximo ano (em 2004) devo fazer uma turnê com eles por alguns festivais por aqui na Europa no verão.

6 - Como é a rotina de um estudante da escola de mímica corporal?

Não é fácil, mas ao mesmo tempo e uma experiência fantástica, a escola tem mais ou menos 30 alunos, todos de diferentes partes do mundo, se troca muito e ao mesmo tempo se sobra pouco tempo para vida social, a escola e rigorosa e cara, mesmo para o padrão daqui, significa que o tempo que você não vai estar estudando ou preparando alguma coisa para escola, você estará trabalhando para pagá-la, descansar? Quase nunca sobra tempo. Aulas todos os dias da semana, técnica, repertório, técnica, improviso, mais técnica, treino, treino, treino…

7 - O que você sugere para as pessoas que estão querendo iniciar uma carreira na arte do gesto?

Acredito que existem vários caminhos, teorias e técnicas diferentes, uma mais fascinante do que a outra, acho bom conhecer e experimentar diferentes caminhos para estar seguro de suas escolhas mas no final é bom escolher um, mesmo um maestro de orquestra que consegue tocar vários instrumentos, iniciou apenas tocando um, e sempre e melhor neste, no Brasil temos esta obsessão por técnicas e novidades, talvez por ser uma pátria nova e ainda estarmos construindo nossa tradição em arte, mas não precisamos ser especialistas em tudo, é bom descobrir o que serve para seu corpo, e ir fundo, podemos assimilar “pedaços” de outras escolas, mas é necessário treino, dedicação em uma para dominar o “instrumento expressivo”, no caso da arte do gesto, nós mesmos, corpo e alma.

Victor de Seixas

londres, janeiro 2004

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