Blog.mimicas.com

Informações sobre a arte da mímica

A arte de calar a boca - Fernando Prado

A arte de calar a boca ( e abrir o coração )

No dia 13 de Novembro comemora-se em todo o mundo o dia internacional da Mímica, data proclamada no ano de 1998 pelo Instituto Internacional de Teatro (Unesco), em comemoração ao nascimento de Etienne Decroux, criador da Mímica Corporal, ou Mímica Pura, como ficou conhecida posteriormente.

Durante 25 anos, apresentou dramas falados para ganhar a vida até que nesse ínterim se envolveu com a dança clássica, a partir da qual desenvolveu pesquisas próprias criando a mime corporel, os exercícios em seu estúdio eram feitos de rosto coberto e corpo nu, seu ideal era rien dans lês mains, rien dans lês poches ( Nada nas mãos, nada nos bolsos). Como símbolo desta arte, foi escolhido o cavalo marinho, tanto pela ausência de mãos e braços quanto pela ênfase no tronco / espinha. Essência de sua técnica. A imagem do cavalo marinho remete à leveza e ao mistério deslocando-se como se a água o movesse. Mal sabia Decroux que a Mime Corporel se transformaria não só numa espécie de alfabeto mímico como também e em uma linguagem dramática completamente nova. No início de seus trabalhos dois encontros impulsionam as pesquisas de Decroux. O primeiro deles é com Suzanne Lodieu, performer francesa, que viria ser sua companheira mais tarde e que o segue em seus espetáculos e cursos; o segundo encontro é com Craig que escreve e publica – num periódico francês - um artigo sobre E. Decroux, qualificando a Mime corporel.

A codificação dos movimentos corporais feitas por Decroux significou a formalização de um processo artístico cuja finalidade era a comunicação sem a fala propriamente dita. Decroux dividiu seus treinamentos em quatro itens: 1) exercícios ginásticos, 2) exercícios de expressão, 3) formas de expressão 4) quadros de mímica. O ator deveria ser capaz de expressar sentimentos por meio da fiscalização de seus gestos, negando o verbo. Segundo Luís Otávio Burnier, em seu livro A Arte do Ator, Decroux costumava dizer em suas aulas que para um ator expressar felicidade, tendo o rosto coberto e os braços amarrados, teria que trabalhar por muito tempo. Debruçou-se, então, neste ponto suas pesquisas até 1991, quando veio a falecer com 93 anos de idade. Desde então diversos mímicos vêm se apropriando de diversas maneiras dessa técnica fazendo sua própria leitura como é o caso da performer brasileira Denise Stoklos.

Seguindo a linha de Decroux, encontra-se também Marcel Marceu, grande mimo francês, que conta hoje 76 anos e mais de 50 de profissão. Seu repertório continua sendo apresentado pelo mundo inteiro encantando platéias de culturas diversas sem que seja necessário ao menos ‘sonorizar’ seu próprio nome.

Segundo depoimentos recolhidos do público presente nos espetáculos de Marceu, é comum o teatro ficar em completo silêncio durante toda a apresentação. O que se mostra simples no palco, esconde o profundo domínio técnico do mimo: a arte de desenhar no espaço. Seu apuramento e precisão nos gestos sugerem que a mímica não é uma mera reprodução de um comportamento observado e sim algo muito mais profundo. Os animais miméticos, por exemplo, se anulam para se proteger, para garantir sua sobrevivência; o mimo segue o mesmo princípio. O fato narrado nos remete facilmente aos filmes de Charles Chaplin e Buster Keaton, influências marcantes sobre Marceu.

O silêncio, que pode nos parecer a priori sufocante, não priva os espectadores de boas gargalhadas e nem mesmo de lágrimas de comoção. A taciturnidade reserva-se ao palco, o que ele mesmo em entrevistas admite: “não faça um mímico falar, ele não vai parar!”. Marceu é sempre convidado de programas de tv nos quais apresenta seus famosos quadros de mímica, além de ser recorrência técnica entre grandes coreógrafos e astros da música; quem não se lembra do “passo da lua” de Michael Jackson?

No mundo são poucos os que se aventuram à Mímica como profissão. Entre estes poucos figuram: Luis Louis, Jiddu Saldanha, Alberto Gaus, Eduardo Coutinho, Vicentini Gomez, Marcya Harco, Toninho Lobo, Centro Teatral Etc. e Tal, Josué Soares, Luiza Monteiro, Ana Teixeira, Paulo Trajano, Denise Namura, Lina do Carmo entre outros como grandes referências no Brasil. Portanto, apaguem-se as luzes e atenção, que a caça aos mímicos, quero dizer, que o espetáculo está por começar.

Fernando Prado
* Fernando Prado, é Professor de Artes Dramáticas, graduado em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Uberlândia com qualificação em Jornalismo e pós graduando em psicopedagogia.

 | Enviar por e-mail  | Hits para esta publicação: 2171