Entrevista realizada em 2006 por Laura Lucci para sua tese de mestrado.
ENTREVISTA COM VICTOR DE SEIXAS
P: Victor, fale um pouco de você e de como e quando conheceu a Mímica Corporal de Decroux.
R: Só para deixar claro uma questão semântica importante, não existe Mímica Corporal do Decroux existem os princípios (técnica) criados por ele que se chama Mímica Corporal Dramática, utilizados por diversos profissionais que continuam os desenvolvendo conforme suas escolhas estéticas, podemos inclusive afirmar que toda a Mímica ocidental contemporânea tem origem na técnica criada originalmente por Decroux.
Meu primeiro contato prático com a técnica foi em um workshop em belo horizonte, em 2000(?) dentro do ecun, em uma oficina com a Ana Teixeira e o Stefane, onde conheci você também. Andava nesta época estudando a origem da técnica que eu já utilizava há algum tempo, e na pouca literatura que encontrava chegava sempre a esse nome, Decroux, quando vi a oficina em minas não pensei duas vezes, corri para lá…
Comecei na Mímica em 1993, nesta época minha busca em teatro era dentro de uma linha mais “grotowiskiana”, quando fazendo aulas de circo no circo voador conheci o mímico jiddu, fiquei fascinado pela qualidade de seu movimento e acabei “colando’ nele para aprender mais, mudei para são Paulo e fui atrás do Fernando Vieira que me ensinou muito também, ate que um dia sem perceber, já não assinava mais como palhaço ou ator e sim mímico.
Na Europa, alem de me formar na escola de Mímica Corporal, fui atrás de outras técnicas que acredito ajudam a complementar a minha busca por um teatro baseado no movimento, mascaras, dança, preparação física, respiração torácica e manipulação de objetos, mas posso dizer que a técnica da Mímica Corporal hoje norteia meu trabalho.
P: Após seus estudos na Inglaterra, como você vem usando e aplicando a Mímica Corporal Dramática? (aulas, workshops, direção, atuação).
R: Como disse anteriormente a Mímica Corporal hoje em dia norteia meu trabalho, até mesmo quando ministro uma oficina ou dirijo algo que não e de Mímica Corporal, eu utilizo seus princípios, o treino dentro dos princípios da Mímica Corporal deixou minha visão sobre o movimento mais sofisticada e o conhecimento sobre qualquer assunto e um caminho sem volta… Alem de ter mudado a minha relação com o movimento dentro do meu corpo e meu corpo em relação do espaço.
Estou dando cursos regulares de Mímica Corporal e também apresentando um solo e buscando verbas para projetos com elencos maiores treinados por mim.
Acredito que o meu treino na Mímica Corporal ainda não acabou, a primeira etapa foram os três anos na escola onde aprendi a técnica agora estou em uma segunda etapa, onde e a hora de eu codificar tudo que aprendi em meu corpo e minha expressão, e um processo contínuo de pesquisa e treino, para poder entrar em uma terceira etapa de transformação em uma técnica pessoal e dar continuidade a o desenvolvimento da técnica…
Por isso que considero importante a “decodificação” do que aprendi para ensinar também, dar aulas atualmente de Mímica esta complementando meus estudos e na aplicação pratica da técnica.
P: Você percebe alguma diferença ou dificuldade em aplicar uma técnica européia aqui no Brasil? É necessário fazer ajustes na relação ensino/aprendizado?
R: E importante se criar um diferencial entre a técnica e a estética do profissional que a ensina, e muito comum de se fazer confusão entre o estilo pessoal do professor e o que ele ensina.
A técnica da Mímica Corporal é universal, o Decroux era francês, isto e, a abordagem dele sobre a técnica era francesa, o estilo dele, a forma que a técnica se apresentava por ele estava impregnado por sua bagagem cultural.
É muito comum sair de uma escola carregando a técnica com as características culturais do professor e é um processo necessário incorporar a técnica em seu estilo pessoal e sua bagagem cultural para que se torne orgânico e não uma repetição, pois a combinação estilo+técnica de uma pessoa só vai funcionar para o original o resto será uma copia distorcida.
Infelizmente a maioria das pessoas, em qualquer lugar do mundo, procuram formulas mágicas, são poucas que realmente se comprometem em um treino intenso e regular, tive experiências de dar aulas em Londres e na Escócia e encontrei poucas pessoas interessadas em se dedicar a algo em longo prazo, e na verdade fui eu que tive fazer o “ajuste” para dar aulas lá na Europa me adequando a cultura deles.
Aqui no Brasil ainda acho mais fácil trabalhar com o corpo, talvez por nossa cultura ligada a celebração, a dança, aqui encontrei mais pré-disposição a se expressar pelo movimento do que na Europa que normalmente demora-se mais para “se deixar levar”, alem de ser difícil dar aulas sem poder tocar nos alunos, nós aceitamos isso com mais facilidade.
P: Que princípios, a seu ver, são mais importantes na Mímica de Etienne Decroux e como você se apropriou deles para seu trabalho pessoal?
R: Só queria deixar claro que a Mímica do Decroux deixou de existir desde que ele morreu, o que ficou foi sua criação que e uma técnica fantástica chamada de Mímica Corporal Dramática, técnica dividida em parte conceitual e parte pratica, a parte conceitual é um convite para observar o movimento interCorporal e extraCorporal de uma maneira nova e mais detalhada e na parte pratica são exercícios para a ampliação da capacidade expressiva do ator, dando-lhe controle de suas articulações, mais coordenação, controle sobre a tensão/ relaxamento, sensibilidade extraordinária sobre o espaço e seus níveis de energia em cena amplificando sua presença em cena.
Como disse antes, o treino da Mímica Corporal deixou meu movimento e minha percepção mais sofisticados, me dando a liberdade de até não usá-los se necessário.
A influencia desse treino foi tão forte que não posso dizer que me apropriei da técnica, mas a técnica transformou meu trabalho pessoal e hoje, dá a forma ao que faço e a minha pesquisa pessoal.
P:Como você enxerga as possibilidades da Mímica Corporal no teatro do século XXI?
R: A Mímica Corporal Dramática e uma técnica, não um gênero de teatral, ainda ha muita confusão sobre esse assunto, não existe um teatro chamado teatro da Mímica Corporal, existe trabalhos realizados se utilizando dos conceitos da Mímica Corporal na sua concepção e existe o trabalho Corporal do ator amplificado pelo treino da técnica.
A Mímica Corporal não e o fim, mas o meio.
A aplicação da Mímica no processo / treino resultará em um teatro onde o corpo e o principal meio da expressão do ator.
A Mímica Corporal tem apenas 80 e ainda e a técnica mais contemporânea neste sentido, e ainda tem muito que crescer, por isso e importante os novos profissionais de agora, “esqueçam” Decroux e comecem dentro dos princípios deixados por ele a dar continuidade ao desenvolvimento da técnica.
Costumo fazer uma analogia com a técnica de pilates, onde o próprio Pilates desenvolveu novos princípios para ao treino Corporal e reabilitação, e mesmo depois de sua morte, sua técnica não parou de crescer e se desenvolver criando até variantes pelos profissionais que vieram depois dele.
A Mímica Corporal esta apenas começando e são poucos os que a conhecem, e para atrapalhar, existe muita confusão e preconceito contra a palavra “Mímica”, mas acredito que em alguns anos será algo natural e presença obrigatória na formação de atores.
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