Certa vez ouvi de uma jovem estudante de Ensino Médio a narrativa de um fato curioso. No último bimestre letivo, a sua professora de Literatura pediu a leitura de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Machado de Assis) e, aos que não tivessem tempo para a leitura integral, indicou um site com o resumo do livro, com o qual seria perfeitamente possível realizar a avaliação sobre a obra.
Segundo alguns profissionais de comunicação estamos agora na “Era da Informação Instantânea” e quando assim dizemos, nos referimos à efemeridade da informação, que se concentra e se dispersa rapidamente e ao curto prazo em que ela deve atingir ao seu destino, estamos movidos pelo convencimento de que o tempo do homem contemporâneo (ao menos o ocidental) é sempre escasso.
Estudos detalhados, que muitas vezes exigem longos prazos de dedicação, treinamentos e pesquisas com base histórica consistente têm sido substituídos gradualmente por curtas experimentações e pesquisas teóricas que tomam uma única obra ou elemento de um pesquisador-criador como referência absoluta de todo o seu trabalho.
Sem estudar a fundo um determinado assunto ou, especificamente, uma técnica, torna-se impraticável compreender a sua amplitude e as possibilidades de criação por ela abrangidas e, sem compreensão, muitas vezes caminha-se para a tão conhecida “reinvenção da roda”, como se o “aluno sem tempo” daquela professora de Literatura dos resumos sentisse falta de elementos que estão presentes em abundância no texto original, porém suprimidos ou imperceptíveis na versão resumida e resolvesse fazer uma obra com um personagem mendigo em enlouquecimento ao decorrer da história e algumas ironias refinadas (presentes na obra integral), então colocaria um título como “Memórias Póstumas de Brás Cubas Plus” e exporia sua mais nova criação àqueles que mal leram nem mesmo o resumo. O tal aluno julgaria que leu o suficiente do livro original e tudo o que fez é sua inovação, um novo caminho para a tal obra e, dependendo de seu grau de eloquencia, poderia ser perigosamente considerado por muitos um novo gênio da literatura contemporânea. Além de não ser inovador, como considera ser o “aluno sem tempo” e seus colegas, provavelmente não chegaria nem mesmo próximo à qualidade do trabalho de Machado de Assis, pois uma obra culmina de uma série de fatores: a história pessoal e profissional de vida do criador, o momento histórico em que se situa, seus parceiros e colaboradores e, geralmente, não resulta de imediatismos, comuns a esta nossa “Era da Informação Instantânea”. É intensamente necessário conhecer e apropriar-se de uma técnica para utilizá-la plenamente, para esta não seja como ir ao baile com um sapato novo demais, visualmente interessante, mas incômodo ao seu usuário, a ponto de, em algum momento, ter que abandoná-lo forçosamente aos olhos de todos ou disfarçadamente sob uma mesa.
O mundo atual gera milhares de especialistas em “sites de resumo” (ou similares não virtuais), o que ocasiona a diluição da informação. Quando nos referimos às técnicas artístico-corporais, essa afirmação ganha uma força redobrada. O corpo em sua totalidade, ou seja, incluindo mente, durante a rotina de aprendizado, necessita após a apreensão de uma idéia ou prática, assimilar a informação, associar internamente aos seus próprios signos, para enfim, fazer parte de seu sistema natural de ações e poder ser utilizado como ferramenta expressiva, processo que leva tempos variáveis para cada pessoa, mas jamais poderia ser imediato ou desacompanhado de um longo período de estudos e treinamentos.
Como diz um ditado popular: “O grau de flexibilidade de um lápis apenas é conhecido quando ele se quebra”. Uma técnica apenas atinge a transformação quando atinge o seu limite. Estudos, estéticas e técnicas, como a Mímica Corporal Dramática, por exemplo, são resultados de persistentes pesquisas, inúmeras experimentações, codificações, pontuações expressivas e contextuais, trabalho considerado por muitos até mesmo como obsessivo. Seria impossível chegar a uma evolução natural da técnica, sem antes atingir seu limite, o que, para a maioria absoluta de nós, é algo quase utópico, pois há muito que se esmiuçar sobre a MCD e aos que crêem que chegaram, provavelmente desconhecem profundamente a técnica.
Sem dúvida podemos nos inspirar, mesclar conhecimentos, criar métodos de trabalho que contenham informações de diferentes “escolas”, sobre isto, não há dúvidas. Cada profissional tem suas necessidades expressivas, culturais, sociais, entre outras, e formula seu modo de trabalho e criação de acordo com estas e com a responsabilidade para com o seu público, ou seja, a habilidade de responder com propriedade, por cada elemento que cita ou agrega a este método de trabalho. Somando métodos, observando a realidade do artista contemporâneo, trocando informações, experimentando e pesquisando podemos caminhar para que talvez alguns lápis se quebrem ou conheçamos o quanto é surpreendentemente grande seus limites de flexibilidade.
Rose Prado
São Paulo - Ano do Boi
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12 Ago 2009